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PUBLICAÇÃO NO LANCET ONCOLOGY

Breast cancer in Brazil: present status and future goals

Brittany L Lee, Pedro E R Liedke, Carlos H Barrios, Sergio D Simon, Dianne M Finkelstein, Paul E Goss. Lancet Oncol 2012; 13: e95–102

Levando em conta a crescente incidência e a importância do câncer de mama no país, membros do GBECAM, em colaboração com autores do Massachusetts General Hospital e da Escola de Medicina de Harvard, nos Estados Unidos, escreveram um artigo de revisão sobre o estado atual do câncer de mama no Brasil, utilizando como base estudos publicados na literatura nacional e internacional, além dos resultados do Projeto Amazona.

Este artigo resume as informações disponíveis sobre esta doença no país, desde dados epidemiológicos, passando por diagnóstico, tratamento e pesquisa clínica. O objetivo deste trabalho é servir como fonte confiável de informação e ponto de partida para melhorar os cuidados às pacientes com câncer de mama.

A taxa de mortalidade por incidência de câncer de mama no Brasil atualmente é de 0,291, ou seja, há quase 1 morte para cada 3 novos diagnósticos. Para efeitos comparativos, nos Estados Unidos a mesma taxa é de 0,193 e na União Europeia é de 0,215. Isto é ainda mais importante quando levamos em conta que a incidência é significativamente maior nestes países.

Não há dados precisos sobre as taxas de screening para câncer de mama no Brasil. As recomendações do Ministério da Saúde (MS) são de que mamografias devem ser realizadas a partir dos 50 anos de idade em mulheres da população em geral. Baseados em dados do SISMAMA e do Ministério da Saúde, os autores estimam que apenas cerca de 9,6% da população brasileira de mulheres nesta faixa etária tenha realizado mamografia de rastreamento em 2010. Mesmo com os possíveis vieses desta estimativa, e sem informações disponíveis do sistema privado, esta taxa está muito aquém dos 70% recomendados pela OMS.

Em relação à assistência prestada às pacientes com câncer de mama, os autores destacaram importantes achados em relação ao diagnóstico e tratamento desta doença. As informações encontradas sobre o tempo entre suspeita e diagnóstico no sistema público de saúde variaram de 72 a 185 dias. Dados do SISMAMA mostram que aproximadamente 1/3 das mamografias diagnósticas levam mais de 30 dias para serem interpretadas.

Estas informações são importantes diante dos dados do Projeto Amazona, o qual demonstrou que mais de 1/3 das mulheres diagnosticadas através do sistema público têm doença em Estádio III e IV, comparado com apenas 16% daquelas do sistema privado. Outro achado importante é que, diferente da neoplasia de cérvice, não há programas nacionais de padronização diagnóstica para câncer de mama. Estudos sugerem que a discordância diagnóstica pode chegar a 40% entre patologistas. Também não há padronização para a realização de estudos imunohistoquímicos. Um estudo demonstrou que a taxa de concordância para a testagem de HER2 em um laboratório local comparado com um laboratório de referência foi de apenas 34%.

Em relação ao tratamento, dados do MS demonstram que 65% das cirurgias realizadas pelo SUS em 2010 foram mastectomias. Não foram encontrados dados sobre a qualidade da radioterapia no país. O Brasil possui atualmente 0,93 unidades de radioterapia por milhão de habitantes. Nos Estados Unidos esta taxa é de 8,85 por milhão.

Os únicos dados disponíveis sobre terapia sistêmica vieram do Projeto Amazona. Conforme este estudo, tamoxifeno é a hormonioterapia adjuvante mais utilizada no país para mulheres com câncer de mama hormônio positivo. Quimioterapia adjuvante, apesar de largamente disponível, ainda é baseada em regimes de primeira geração como CMF. Também foi visto que o acesso à terapia anti-HER2 para pacientes que tem HER2 superexpresso é muito diferente entre aquelas tratadas no sistema público e no privado.

No primeiro apenas 5,6% das pacientes receberam este tratamento, comparado com 56% no segundo. Em relação ao tratamento paliativo do câncer, dados sugerem que o Brasil tem a menor taxa de serviços de medicina paliativa por habitantes das Américas e do Caribe: apenas 1 serviço para cada 13.315 mil habitantes.

Por fim, os autores abordaram o estado atual da pesquisa clínica no Brasil. Foi destacado que apesar de sermos o país com maior número de estudos clínicos abertos para esta doença na América do Sul, há importante falta de investimentos que permitam maior dedicação e desenvolvimento da área.

Também há destacada necessidade de aumentar a produção nacional de conhecimento, visto que a maioria dos estudos atuais vêm do exterior. Os autores também discutem que há necessidade de se manter o adequado escrutínio ético na pesquisa, porém sem causar entraves legislativos e burocráticos que reduzam a capacidade do país de crescer nesta área.

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