O impacto das novas pesquisas no câncer de mama e as barreiras para representar as diversidades da população

Dr. Mario Machado Lopes

Autor: Mario Machado Lopes – Oncologista Clínico no Hospital Moinhos de Vento e Hospital Nossa Senhora da Conceição, Porto Alegre – RS

Introdução:

Com os tratamentos disponíveis para o câncer de mama é possível atingir taxas de cura de até 95%, principalmente quando o diagnóstico é feito em estágios iniciais através de exames de rastreio.(1) A busca por novas opções de tratamento e atingir resultados ainda melhores para todos os pacientes são os objetivos da pesquisa clínica em oncologia.

O processo de descoberta de novos tratamentos envolve o uso prévio por pacientes sob observação em centros de pesquisa por tempo suficiente para garantir a segurança e eficácia dessas novas medicações antes de serem aprovadas para a população geral.

A seleção dos pacientes para participação de uma pesquisa obedece à critérios de inclusão que permitem identificar quem são os indivíduos com maior chance de benefício do novo tratamento. Este grupo de pacientes, denominado população, deve ser representativo e fidedigno aos pacientes atendidos na prática clínica diária.

Entretanto, apenas 2 a 8% dos pacientes com diagnóstico de câncer participam de protocolos de pesquisa.(2) A dificuldade no acesso a centros de pesquisa com novos tratamentos em estudo ainda é uma barreira para muitos pacientes, seja pela indisponibilidade de centros de pesquisa, principalmente fora de regiões metropolitanas, ou até mesmo pela falta de informação a cerca dos benefícios em participar de um protocolo de pesquisa.

Muitos esforços são realizados para conscientizar tanto médicos, quanto pacientes sobre a importância da participação em protocolos de pesquisa. Cabe ao médico estar ciente dos estudos em andamento e explicar aos pacientes os benefícios em participar, independentemente do estágio da doença.

Além disso, desigualdade no acesso à novos medicamentos sob pesquisa impactam diretamente no uso destas medicações fora do ambiente de pesquisa, uma vez que os resultados de eficácia encontrados após a conclusão do estudo clínico podem não ser transponíveis para indivíduos de populações não representadas.

Para que um resultado obtido durante uma pesquisa seja usado em pacientes da prática clínica diária, os participantes selecionados precisam representar a diversidade da população geral, como diferentes raças, idades, gêneros e regiões do mundo, uma vez que todas estas características biológicas e até mesmo as sociais, podem interferir na eficácia e toxicidades de um tratamento.

A ausência de pacientes de determinada etnia em ensaios clínicos pode comprometer a aplicabilidade dos resultados para esse grupo, uma vez que efeitos adversos inesperados podem surgir e a eficácia do tratamento pode variar em função de diferenças genéticas e biológicas. Um exemplo relevante é a elevada frequência de mutações germinativas no gene BRCA entre indivíduos judeus ashkenazim, o que pode influenciar tanto a resposta, quanto os efeitos das terapias oncológicas direcionadas a esse perfil genético. (3)

Outro desafio é o aumento da incidência de câncer em pacientes idosos sem o aumento esperado da inclusão desta faixa etária em estudos clínicos. A falta de representatividade de pacientes idosos em protocolos de pesquisa dificulta predizer se a mesma dose encontrada como segura para os demais participantes, poderá também ser segura para pacientes idosos, visto que o metabolismo destes pacientes é diferente e exige estratégias para redução das toxicidades do tratamento para o câncer. Em estudos clínicos conduzidos no Canadá, a inclusão de pessoas acima de 65 anos permanece abaixo de 25%.(4)

Apesar do aumento de pesquisas conduzidas no Brasil, estudos maiores ainda seguem com sub representatividade local, com baixa inclusão de participantes latino-americanos, alguns com inclusão inferior à 5%, sendo a maioria dos participantes brancos e norte-americanos.(5,6)

Como podemos melhorar?

A realização de campanhas educativas voltadas à conscientização da população sobre a importância da participação em estudos clínicos é essencial para ampliar a representatividade nos ensaios clínicos e garantir que os resultados obtidos reflitam com maior fidelidade a diversidade presente na população geral.

O uso de plataformas digitais e o desenvolvimento de aplicativos representam estratégias promissoras para ampliar o acesso a protocolos de pesquisa. Essas ferramentas permitem que os pacientes localizem centros com tratamentos experimentais disponíveis e verifiquem sua elegibilidade de forma online, contribuindo para reduzir as lacunas geradas pela baixa representatividade de determinados grupos em estudos clínicos.

A oferta de recursos adequados, especialmente em países em desenvolvimento como o Brasil, é fundamental para viabilizar a participação de pacientes em situação de vulnerabilidade social em estudos clínicos, contribuindo para a redução das desigualdades no acesso à pesquisa e aos avanços terapêuticos.

Portanto, apesar de novas medicações disponíveis e com resultados positivos, ainda precisamos conhecer melhor o efeito de cada medicação dentro da diversidade que existe na população e superar as barreiras no acesso à pesquisa clínica. Para isso, deve haver um esforço coletivo entre médicos, comunidade científica e pacientes para conscientizar a população sobre a importância da pesquisa no tratamento do câncer.

 

Referências Bibliográficas

  1. Muzaffar M, Naqash AR, Vohra NA, Liles DK, Wong JH. Clinical outcomes in very early breast cancer (≤ 1cm): A national population based analysis. Journal of Clinical Oncology [Internet]. 2017 May 20 [cited 2025 May 12];35(15_suppl):e12034–e12034. Available from: https://ascopubs.org/doi/10.1200/JCO.2017.35.15_suppl.e12034
  2. Unger JM, Hershman DL, Till C, Minasian LM, Osarogiagbon RU, Fleury ME, et al. ‘When Offered to Participate’: A Systematic Review and Meta-Analysis of Patient Agreement to Participate in Cancer Clinical Trials. J Natl Cancer Inst [Internet]. 2021 Mar 1 [cited 2025 May 12];113(3):244–57. Available from: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33022716/
  3. Reisel D, Burnell M, Side L, Loggenberg K, Gessler S, Desai R, et al. Jewish cultural and religious factors and uptake of population-based BRCA testing across denominations: a cohort study. BJOG [Internet]. 2022 May 1 [cited 2025 May 12];129(6):959–68. Available from: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34758513/
  4. Yee KWL, Pater JL, Pho L, Zee B, Siu LL. Enrollment of older patients in cancer treatment trials in Canada: Why is age a barrier? Journal of Clinical Oncology [Internet]. 2003 Apr 15 [cited 2025 May 12];21(8):1618–23. Available from: https://ascopubs.org/doi/10.1200/JCO.2003.12.044
  5. Schmid P, Cortes J, Pusztai L, McArthur H, Kümmel S, Bergh J, et al. Pembrolizumab for Early Triple-Negative Breast Cancer. New England Journal of Medicine [Internet]. 2020 Feb 27 [cited 2025 May 12];382(9):810–21. Available from: https://www-nejm-org.translate.goog/doi/pdf/10.1056/NEJMoa1910549?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc
  6. Johnston SRD, Toi M, O’Shaughnessy J, Rastogi P, Campone M, Neven P, et al. Abemaciclib plus endocrine therapy for hormone receptor-positive, HER2-negative, node-positive, high-risk early breast cancer (monarchE): results from a preplanned interim analysis of a randomised, open-label, phase 3 trial. Lancet Oncol [Internet]. 2023 Jan 1 [cited 2025 May 12];24(1):77–90. Available from: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36493792/

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