Por Dra. Natasha Pandolfi
Introdução
O câncer de mama é uma das principais causas de morte por câncer em mulheres em todo o mundo. Embora sua incidência seja menor entre mulheres negras em comparação com as brancas, a mortalidade é inversamente proporcional, sendo significativamente maior em mulheres negras ¹ ⁵. Esse paradoxo se deve, em grande parte, a uma combinação de fatores genéticos, socioeconômicos e limitações nos sistemas de saúde. Além disso, a forma como o câncer de mama se manifesta pode variar bastante entre diferentes grupos étnicos.
Desigualdade nos subtipos intrínsecos
O câncer de mama não é uma única doença, mas sim um grupo de doenças com diferentes características biológicas e comportamentos distintos. Os subtipos intrínsecos mais conhecidos incluem o tipo luminal A, luminal B, HER2-superexpresso e basal-like (frequentemente associado ao câncer de mama triplo-negativo – TNBC).
Estudos mostram que mulheres negras, especialmente as de origem africana, têm uma maior probabilidade de desenvolver o subtipo basal-like, que geralmente está associado a um prognóstico desfavorável. Cerca de 21% das mulheres negras são diagnosticadas com TNBC, em comparação com 12% das mulheres hispânicas e apenas 10% das mulheres brancas não hispânicas¹. Além disso, essas mulheres apresentam uma frequência mais alta de mutações genéticas, que estão relacionados a tumores mais agressivos e resistentes aos tratamentos atuais¹².
Impacto da desigualdade genômica
A maioria dos estudos clínicos que testam novas terapias é realizada principalmente com populações de ascendência europeia, especialmente porque os estudos são desenvolvidos e pacientes são selecionados na América do Norte e Europa⁴. A inclusão de populações não brancas nos estudos clínicos é fundamental para garantir que os tratamentos desenvolvidos sejam eficazes para todas as etnias. A ausência de estratégias de inclusão dessas populações limita a compreensão do funcionamento do câncer de mama em outros grupos, como negros, hispânicos e indígenas.
Análises genômicas realizadas em testes que avaliam o tecido e a biologia molecular do câncer, como o PAM50 (Prediction Analysis of Microarray 50), revelaram que mulheres afro-americanas têm perfis genômicos distintos, com maior probabilidade de ter subtipos agressivos, como o basal-like, e mutações específicas, como no gene TP53, que são mais resistentes ao tratamento¹. Em contraste, mulheres brancas têm maior frequência de mutações tumorais em genes como o PIK3CA, que podem ser tratadas com terapias dirigidas/alvo, resultando em melhores taxas de sobrevivência.
Além disso, a falta de dados de populações minoritárias nos estudos clínicos limita o entendimento sobre os fatores de risco específicos e os padrões de progressão da doença nessas populações. Mulheres negras e hispânicas, por exemplo, apresentam maior probabilidade de serem diagnosticadas em estágios mais avançados, o que está associado a uma menor chance de sobrevida. Nos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, onde a maioria dessas mulheres vive, as taxas de sobrevivência ao câncer de mama são frequentemente inferiores a 40%, enquanto em países de alta renda o acesso ao tratamento ultrapassa 90%.
Desafios e oportunidades para a equidade nos estudos clínicos
A sub-representação de minorias étnicas em estudos clínicos não é apenas uma questão de inclusão, mas também de precisão científica. Estudos revolucionários, como TAILORx e estudos de inibidores de ciclina em câncer de mama luminais, incluíram apenas 7,1%, e 2,1% a 6% de mulheres afro-americanas e negras, respectivamente². Esta falta de diversidade limita a capacidade de identificar variações genômicas críticas e validar a eficácia de tratamentos em diferentes populações.
Além disso, a ausência de classificações raciais e étnicas universalmente aceitas dificulta comparações precisas entre estudos e limita o desenvolvimento de terapias realmente personalizadas. Revisões recentes ressaltam que, por exemplo, o microambiente tumoral de mulheres negras com câncer de mama triplo-negativo apresenta diferenças significativas, o que pode impactar a resposta ao tratamento e o prognóstico³. Essas particularidades biológicas podem ajudar a explicar disparidades clínicas observadas e devem ser mais bem exploradas em estudos futuros, com o objetivo de desenvolver estratégias terapêuticas mais personalizadas e eficazes para essa população⁵.
Conclusão
Para reduzir as disparidades no tratamento e nos resultados de sobrevida no câncer de mama, é essencial que os estudos clínicos incluam populações diversas, permitindo uma compreensão mais precisa dos mecanismos biológicos que impulsionam essa doença. Isso não apenas melhora os desfechos clínicos para todas as mulheres, mas também promove equidade no acesso a cuidados de saúde de alta qualidade.
Referências:
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- Bea VJ, Butler L, Pungowiyi L, et al. Clinical trials and breast cancer disparities. Curr Breast Cancer Rep. 2021;13(3):186-196. doi:10.1007/s12609-021-00422-2.
- Sharma R, Tiwari AK. Bridging racial and ethnic disparities in cancer research. Cancer Rep (Hoboken). 2023;6(S1):e1871. doi:10.1002/cnr2.1871.
- Aldrighetti CM, Pungowiyi L, Figueroa J, et al. Racial and ethnic disparities among participants in Precision Oncology Clinical Studies. JAMA Netw Open. 2021;4(11):e2133205. doi:10.1001/jamanetworkopen.2021.33205.
- Hamilton AM, Hoadley KA, Troester MA. Race and ancestry in immune response to breast cancer. Cancer Discov. 2022;12(11):2496-2497. doi:10.1158/2159-8290.cd-22-0852.