Por Dra. Felícia P. Cavalher, MD PhD
Introdução
O câncer de mama é o tipo de câncer com maior incidência e mortalidade entre as mulheres no Brasil e no mundo. O diagnóstico e as decisões terapêuticas são influenciados por diversos fatores clínicos e sociais, incluindo o acesso às diferentes modalidades de tratamento, o perfil socioeconômico e as características individuais das pacientes. Neste contexto, este artigo discute os fatores sociais que interferem nessas escolhas, com ênfase no cenário brasileiro.
Epidemiologia do câncer de mama e sua relação com o perfil socioeconômico
O câncer de mama é o segundo de maior incidência no mundo, atrás apenas do câncer de pulmão, e o quarto tipo de câncer de maior mortalidade. Entre as mulheres, é o de maior incidência e mortalidade globalmente1. Em 2022, estimou-se que 2.3 milhões de mulheres foram diagnosticadas com câncer de mama e 670.000 morreram em decorrência da doença no mundo1. No Brasil, também é o tipo de câncer mais incidente e a primeira causa de morte por câncer entre as mulheres, com aproximadamente 73.610 novos casos em 2023 e 19.103 óbitos em mulheres em 20222,3. Estimativas globais apontam disparidades relevantes relacionadas ao nível socioeconômico e ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), com taxas de incidência mais elevadas em países com alto IDH (1 a cada 12 mulheres) em comparação aos de baixo/médio IDH (1 a cada 27 mulheres), e maior mortalidade nos países com baixo/médio IDH (1 a cada 48 mulheres) em relação aos de alto IDH (1 a cada 71 mulheres)1, independentemente do status menopausal4.
Além de fatores associados à história reprodutiva da mulher, como idade da menarca e da menopausa, e ao estilo de vida5, a menor incidência e a maior mortalidade por câncer de mama em países com baixo/médio IDH também estão associadas à limitação no acesso aos serviços de saúde e à escassez de métodos adequados de diagnóstico e tratamento. Essas barreiras contribuem para um número reduzido de diagnósticos em estágios inicias e, consequentemente, maior frequência de casos detectados em estágios avançados da doença6,7. Outros fatores envolvidos são menor nível socioeconômico e de escolaridade da população, que se traduzem em menor conhecimento sobre a doença e seus sintomas, podendo retardar o diagnóstico e interferir na adesão ao tratamento8. Resultados do estudo AMAZONA-III demonstram que, enquanto mais de 80% das mulheres brasileiras com acesso à saúde suplementar são diagnosticadas com câncer de mama estadio clínico I ou II, mais de 40% daquelas que dependem do sistema público de saúde são diagnosticadas com câncer de mama avançado, estadio clínico III ou IV9. Pacientes diagnosticadas com tumores em estágios mais avançados, que geralmente apresentam pior prognóstico, tendem a necessitar de tratamentos mais agressivos e prolongados. Essa condição influencia diretamente as decisões terapêuticas e pode ter impacto significativo na qualidade de vida dessas mulheres.
Influência das disparidades de acesso e da adesão ao tratamento do câncer de mama
O diagnóstico precoce e o acesso adequado às diferentes modalidades terapêuticas (cirurgia, radioterapia e tratamento sistêmico) são os pilares da estratégia global de controle do câncer de mama. Por exemplo, pacientes que levam mais de 3 meses entre o surgimento do primeiro sintoma e o início do tratamento possuem um aumento de 12% na mortalidade por câncer em 5 anos, quando comparado àqueles que esperam menos de 3 meses10.
No Brasil, cerca de 74% da população depende exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS), que oferece barreiras importantes para o tratamento oncológico quando comparado à saúde suplementar, como maior tempo para o diagnóstico e o início do tratamento, disparidades em relação ao acesso aos tratamentos inovadores e às novas medicações, destacando-se a imunoterapia e as terapias-alvo, e menor suporte ao paciente durante o tratamento3,11. Adicionalmente, aproximadamente 58.9 milhões de brasileiros vivem abaixo da linha de pobreza, e a maior parte são pessoas negras ou mulatas, que podem ser alvo de preconceitos raciais que também interferem no tratamento12. Um estudo recente demonstrou que mulheres negras brasileiras com diagnóstico de câncer de mama e tratadas pelo SUS apresentam menor sobrevida global em 5 anos quando comparadas às mulheres brancas (64% versus 74%, p<0.0001). Além disso, o risco de morte por todas as causas foi aproximadamente 24% maior entre as mulheres negras, tanto na ausência (HR 1.24, IC 95% 1.16-1.34, p<0.0001) quanto na presença de terapia hormonal (HR 1.25, IC 95% 1.14-1.38, p<0.0001)13.
A radioterapia tem papel fundamental no tratamento do câncer de mama, tanto no cenário adjuvante, quanto paliativo. Entretanto, múltiplos fatores colaboram para que não esteja disponível para todos os pacientes que se tratam pelo SUS, como quantidade insuficiente de equipamentos e recursos humanos em todo o território brasileiro. Estima-se que aproximadamente 1011 óbitos por câncer de mama em 10 anos poderiam ter sido evitados caso todas as pacientes com indicação de radioterapia adjuvante tivessem acesso universal a esta modalidade terapêutica no Brasil em 201614.
Além do acesso, o sucesso do tratamento oncológico depende da adesão do paciente. Em relação à hormonioterapia (HT) adjuvante, por exemplo, sabe-se que múltiplos fatores influenciam a adesão, como impacto na qualidade de vida, efeitos colaterais, baixo nível de escolaridade, idade jovem, uso de outras medicações concomitantes15,16 e menor rede de apoio social17. No Brasil, dados recentes demonstram que 58,7% das pacientes com indicação de HT adjuvante aderem ao tratamento, independente de pertencerem ao setor público ou privado, sendo a adesão maior entre as pacientes mais velhas (acima de 60 anos). Mulheres que passaram por supressão ovariana (bloqueio hormonal), enfrentaram dificuldades para retornar ao trabalho ou relataram pior qualidade de vida mostraram menor adesão ao tratamento hormonal. Por outro lado, aquelas que seguiram corretamente a hormonioterapia adjuvante apresentaram melhor qualidade de vida, maior bem-estar emocional e cognitivo, melhor capacidade funcional e mais otimismo em relação ao futuro, quando comparadas às que não aderiram ao tratamento18.
Nos últimos anos, tem se fortalecido o papel ativo das pacientes nas decisões sobre o tratamento oncológico, valorizando não apenas a eficácia terapêutica, mas também os efeitos colaterais e o impacto na qualidade de vida. Nesse cenário, a escuta atenta e o respeito às preferências individuais tornam-se essenciais. Apresentar de forma clara as opções terapêuticas disponíveis, considerando seus benefícios e potenciais toxicidades, e tomar a decisão de forma compartilhada contribui para um cuidado mais humanizado, fortalece o vínculo entre equipe e paciente e favorece a adesão ao tratamento, aumentando as chances de sucesso.
Conclusão
O câncer de mama, doença de elevada incidência e mortalidade, reflete as profundas desigualdades sociais e econômicas que permeiam o acesso à saúde. No Brasil, as disparidades entre os sistemas público e privado, somadas a fatores como baixa escolaridade, pobreza e racismo estrutural, resultam em diagnósticos tardios, menor acesso a terapias inovadoras e redução na adesão ao tratamento — especialmente entre mulheres negras e socioeconomicamente vulneráveis. A radioterapia e a hormonioterapia adjuvante, por exemplo, são estratégias comprovadamente eficazes, mas sua aplicação é limitada por barreiras logísticas e socioeconômicas, impactando desfechos clínicos.
Para reduzir essas iniquidades, é urgente implementar políticas públicas que garantam diagnóstico precoce, acesso universal a tratamentos e suporte multidisciplinar às pacientes. Além disso, a tomada de decisão compartilhada, que considera preferências individuais e qualidade de vida, deve ser incentivada para fortalecer a adesão terapêutica. A superação desses desafios exige não apenas avanços tecnológicos, mas também um compromisso coletivo com a equidade em saúde, assegurando que todas as mulheres — independentemente de raça, renda ou nível educacional — tenham oportunidades iguais de enfrentar a doença com dignidade e acesso a tratamentos eficazes.
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